Todos os dias descobrimos uma maravilha sobre
nós, no entanto, o nosso “eu” é repartido em três partes: Eu, eles e nós. Eu,
porque me esforcei para ser o que sou hoje; eles, porque metade de mim
pertence-lhes; e nós, porque juntos fomos descobrindo, que parte do que
somos é feita da
união.
O meu
nome é Juliana, e sou do signo touro. Nasci em Cascais com raízes africanas:
angolana, cabo verdeana, moçambicana e zairense. Olhando para trás, não me
recordo de tantas vivências em pequena… talvez me recorde de quando desobedecia
aos meus pais, ficar de castigo, levar uns açoites, experimentar um pouco dali
e daqui de adrenalina, aquilo… era infância.
Lembro-me de
assistir a um programa de televisão, os “Simpsons”. Naquela altura, não percebia
porque é que os meus pais se riam como se não houvesse amanhã, mas não
importava porque para além de eu não perceber nada de inglês em pequena,
gostava de me rir… sentia-me feliz sem perceber a linguagem, sentia-me feliz
por estar com a minha família.
Sempre tive quem cuidasse de mim em pequena,
os meus pais, e, quando ausentes, uma ama. Lembro-me do meu primeiro dia na
escola primária, e das últimas semanas… antes de engolir um lápis de cera. Era
amarelo, pequeno e fino… gostava de fazer o jogo faz de conta, decidi
transformar um lápis num batom, entretanto, um dos meus colegas decidiram
assustar-me, e lá foi o lápis… escorregou macio que nem esparguete pela
garganta abaixo.
Era a altura em
que tudo me despertava curiosidade, era a altura em que me sujava mas, não
havia problema… porque era criança. Ainda nesta fase, lembro-me do meu primeiro
beijo, da minha primeira asneira… da primeira letra de música que eu compus.
Lembro-me de ter gostado de tantos rapazes…
tinha feito uma lista de quem tinha gostado na altura… doze rapazes… em três
anos! Havia duas hipóteses: ou eu apaixonava-me facilmente, ou nunca tinha
gostado realmente de ninguém.
No entanto, com o passar do tempo apareceu o
meu príncipe encantado. Aí sim, tinha a certeza de que era ele… o signo dele
era Leão. Tinha a certeza que era mesmo o meu príncipe! Porém, acabou tudo tão
rápido em tão longo tempo.
Queria crescer tão depressa que às vezes digo:
“que saudades disto, daquilo…”.
Quando dei por mim, era adolescente.
Mas, percebi que a adolescência é a mesma
maneira de viver a infância, mas de maneira a que a vivamos com mais
intensidade e seriedade. Damos o nosso primeiro beijo na adolescência, da
primeira asneira, mentira, mas, ainda mais estruturada. Temos consciência das
consequências da vida, mas gostamos sempre de atingir o inatingível.
Ainda fico sem
perceber o porquê, mas ao longo do tempo, fui ficando mais reservada, fui
utilizando uma faceta que nunca tinha mostrado, eu não fui eu. Sentia e, de vez
em quando, ainda sinto, quase tudo aquilo que uma rapariga da minha idade
sentiria quando se apercebesse que não se conseguia adaptar num grupo, fosse de
ginastas, de futebol, voleibol… eu, tinha o meu grupo, e nesse grupo era só eu e
os meus estudos, nesse grupo era só eu e os meus estudos… Sentia-me sozinha,
mas era brilhante, e as minhas canetas podiam comprová-lo… notas incomparáveis.
Por criar tantos fios emaranhados na minha
cabeça, tornei-me muito vulnerável a muitos aspectos, ao ponto de fazer coisas
que apenas pessoas como eu na altura perceberiam. E até hoje, não me
identifiquei com ninguém, as situações de todos são sempre diferentes, as
histórias de todos têm sempre um aspecto diferente.
Agora, actualmente, hoje, olho para trás, leio
tudo o que acabei de escrever, e penso:
- Se pudesse voltar atrás, nunca o faria. Se
pudesse ser outra pessoa diferente do que sou hoje, jamais conheceria o meu
verdadeiro eu. Nunca teria perdido e ganho amigos com um significado em
específico, nunca teria conhecido o mundo à minha maneira, a meu ver.
Considero-me forte, vulnerável, orgulhosa,
exigente, por vezes preguiçosa, determinada, inteligente, mimada, entre muitos
outros adjectivos, e entre muitos outros defeitos, mas a meu ver, torno-me
perfeita por ser imperfeita. Torno-me diferente não por querer ser diferente de
todos os outros, mas por preocupar-me em ser eu mesma.


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